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Capítulo, um acontecimento Eclesial No artigo anterior falamos um pouco sobre voto de obediência enquanto escuta de Deus e prática de vida congregacional. Falamos da obediência aos Pastores da Igreja e aos superiores da Congregação... Agora, o Capítulo Geral está às portas. O nosso Capítulo tem de se realizar num clima de Igreja, uma vez que, por constituição, nós somos “marcadamente eclesiais”. Ele tem de ser um encontro de obedientes (ob-audientes) ao Espírito Santo. Os inícios da Igreja são a grande fonte de inspiração para o nosso Capítulo. Lá, os primeiros discípulos estavam encharcados do Espírito Santo e nos momentos significativos de sua liderança, os apóstolos diziam: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós...” (Atos 15,28). Tratava-se de uma verdadeira escuta de Deus no governo da Igreja nascente. Hoje, com a nossa obediência eucarística e sacramentina, somos convidados dar um mergulho naqueles inícios fundantes de nossa Igreja. Assim, nos tornaremos um grupo fecundo, dotado de credibilidade no meio do povo de Deus. No Cenáculo Na vasta literatura espiritual do Pe. Júlio Maria, sempre é mencionado um local memorável: o Cenáculo, a bendita sala onde se deu a Última Ceia. Depois da Ressurreição e Ascensão, os discípulos se reuniram ali em retiro, em preparação para a vinda do Espírito Santo. Na Última Ceia estava o futuro Magistério da Igreja: os doze apóstolos. No retiro de Pentecostes se encontravam cerca de cento e vinte pessoas sérias e responsáveis. No meio dessas pessoas estava em destaque Maria, a Mãe de Jesus (Atos 1,14). Durante o retiro, Pedro sentiu que era necessário promover a eleição de alguém para substituir Judas, pois convinha que todos saíssem dali, alegres e unidos em torno de doze apóstolos – exatamente doze - como foi idealizado pelo Mestre. Foi nesse clima de oração, aguardando a vinda do Espírito Santo prometido, que realizaram a escolha. Tudo foi feito com muita seriedade e bastante critério. Disse Pedro: “Há outros homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor vivia no meio de nós, desde o batismo do João até o dia em foi elevado ao céu. Agora é preciso que um deles se junte a nós para testemunhar a ressurreição” (At 1,21-22). Uma vez apresentados dois nomes dos que preenchiam esses requisitos, Pedro rezou: “Senhor, tu que conheces o coração de todos, mostra-nos qual destes dois tu escolhestes...” (At 1,24). Vejamos os critérios que eles usaram: 1. Procuraram homens que acompanhavam o grupo durante todo o tempo em que Jesus viveu entre eles. Entenderam que, para fazer parte do grupo dos doze, seria necessário escolher candidatos com uma profunda vida espiritual, fruto do contato com Jesus. De fato, esses homens teriam de testemunhar a Ressurreição, e deveriam estar dispostos a dar a vida pela fé. 2. Uma vez escolhidos os candidatos, antes de tirar a sorte para ver qual dos dois seria o indicado, fizeram uma bela oração. 3. Nessa oração pediram que Deus mostrasse para eles qual dos dois Ele já havia escolhido. 4. Só depois dessa importante oração é que tiraram a sorte para ver quem seria o eleito para entrar para o grupo dos Doze. Na Sala do Capítulo Depois de muita preparação, estudos e consulta a toda a Congregação, um pequeno grupo de 29 religiosos capitulares vai comparecer na Casa Mãe para um retiro todo especial. Num clima de recolhimento os participantes do Capítulo entrarão na tradicional capela. Diante do Santíssimo exposto, cantarão o “Veni, Creator Spiritus” (ou “Nós estamos aqui reunidos como estavam em Jerusalém, pois só quando vivemos unidos é que o Espírito Santo nos vem”). Da capela sairão os vinte e nove, certamente um tanto apreensivos e entrarão na sala do Capítulo. Mais do que nunca, nesta sala, todos deverão estar “ob-audientes”. Deverão ficar sempre na escuta de Deus. Tratar-se-á de um acontecimento eclesial e, particularmente, congregacional. Os capitulares não poderão se esquecer de que têm uma grande responsabilidade. O objetivo primeiro do Capítulo é defender o “patrimônio” da Congregação. Isso à luz das orientações da Igreja e da missão sacramentina (Const. 151). E essa missão específica do capítulo de defender o patrimônio vai ser passada ao governo que será eleito. O Governo Geral eleito Tratar-se-á de um grupo mentor da Congregação. Grupo humano, “dotado de muita humanidade”, como se expressou o Pe. Vitório SJ (Convergência, 423, jul/ago de 2009, pp. 447-478). Nas atuais circunstâncias de nossa querida Congregação, creio que o novo governo terá de fazer um “plano de emergência”, primeiro, para o próprio governo e, consequentemente, para todo o corpo congregacional. Entenda-se: não fazer mais um plano para Congregação. Já os temos, e muito bem elaborados (PGC, PGF e outras circulares muito significativas emanadas do atual governo). Tratar-se-á, isto sim, de um plano de vida em que o eixo de suas atividades será colocado no carisma, na espiritualidade e na missão. Plano que contagie a todos os religiosos e os motive a entrarem na linha da mística que é vital para o nosso futuro. Conforme as necessidades reais e atuais da Igreja, vai ser necessário que o governo eleito seja protagonista na revitalização da Congregação. Governo que puxe a fila neste sentido. Governo que se renove, constantemente, para renovar o Instituto. Assim procedendo, o governo não vai sentir a sua missão como um peso insuportável. Pelo contrário, terá a alegria de ver a Congregação leve e missionária, gozando de bastante credibilidade junto ao povo, povo esse tão sensível aos mistérios de Deus. Missão Contínua Está nas letras e no espírito de nossas Constituições. Uma vez eleito por capitulares conscientes, o Superior Geral é investido da sua belíssima e delicada a missão: animar os religiosos para que sejam fiéis à vida evangélica e ao carisma congregacional (Const. 162). Mais ainda: os conselheiros “condividem com o Superior Geral a responsabilidade. Ajudam-no com informações, sugestões, sábio discernimento e propostas. São solidários nas decisões” (Const. 165). Sobre o nosso ser e o nosso agir sacramentinos, basta ler no PGC, 2ª edição, página 58: "O nosso ser e agir missionários (...) acontecem dentro de uma Igreja Particular, a saber, dentro da Diocese onde estamos inseridos como missionários. Portanto, ao inserirmo-nos numa determinada diocese a pedido do bispo diocesano, levaremos para lá o nosso carisma que deve ser vivido em comunhão com aquela Igreja Particular. O nosso ser e o nosso agir vão ser contemplados pelos frutos da Eucaristia nas comunidades onde trabalhamos." Aqui está a missão contínua do Governo Geral: ver, rever a missão sacramentina e orientar os missionários, pois a primeira responsável pela paróquia ou área missionária é a Congregação. Se o governo não cuidar dessa orientação, os religiosos serão tentados a agir de modo totalmente autônomo, um desanimando o outro, o que acabará complicando a Diocese e comprometendo a Congregação. Por tudo isso, o governo precisará de tempo e condições para governar efetivamente o corpo congregacional. Relendo o número 169 das Constituições Este número fala que o Ecônomo Geral não precisa ser do Conselho. “Exerce sua função sob a direção do Superior Geral... Participa das reuniões do conselho quando convocado”. Uma desvinculação muito sábia, creio eu. O Governo Geral deverá ter condições de viver o carisma congregacional de modo protagonista. Acompanhar os religiosos em sua espiritualidade e em sua missão também. Se Superior Geral e conselheiros ficarem um tanto sufocados pelas obras, eles poderão ser repreendidos por Jesus como ele o fez com a dedicadíssima Santa Marta (Lc 10,41-42). Concluindo Como as demais congregações, a nossa também experimentou, nos seus inícios, o fervor da mística vivida pelo fundador, Pe. Júlio Maria. As saídas para regiões mais distantes (naquele tempo tudo era distância) empolgavam aquelas primeiras gerações. Com certeza que o “ser” estava levando ao “agir”. Depois (usando expressões do Pe. Lourenço Kearns) veio a acomodação, o esquecimento dos inícios, a crise de vida ou de morte, a saber, a incoerência, a distância entre o que se fala e o que se vive... Hoje, com outros entusiasmos e outras idéias, estamos tentando nos expandir. Queremos agir. Mas não podemos nos esquecer de que “o agir segue o ser”. Que o Capítulo nos acorde para o nosso ser. Nos acorde para uma atualização e vivência do mistério da Igreja missionária. Marcadamente eucarísticos e eclesiais, com muita espiritualidade e dedicação, com “amor e sacrifício”, poderemos sair para qualquer parte do Brasil e do mundo. Sobretudo para as regiões mais pobres e necessitadas. Não importam os costumes, o calor ou o frio. Lá está o povo sedento de Deus (Amós, 8,11). Deste modo, o povo de Deus, amado pela congregação, povo cada vez mais esperto e perspicaz, vai ter como acreditar nos missionários sacramentinos de Nossa Senhora. Pe. José Herval, SDN Manhumirim - MG |